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CONHEÇA MATTHIEU RICARD : O HOMEM MAIS FELIZ DO MUNDO

Conheça Matthieu Ricard: 

O homem mais feliz do mundo?


Como muitos podem perceber, boa parte dos textos publicados em budavirtual.com.br são trechos do livro "Felicidade – A prática do Bem Estar” de Matthieu Ricard, e compartilhar trechos deste livro foi a premissa inicial do site. Por isso, dedicamos este post a falar mais deste incrível ser, reunimos aqui trechos de uma matéria da Revista Galileuuma entrevista, além de trechos de livros e vídeos dele: 
Era para ser cientista mas acabou monge budista. Filho do filósofo Jean-François Revel e da pintora Yahne Le Toumelin, o francês Matthieu Ricard, 65 anos, cresceu no meio intelectual de Paris e doutorou-se em genética molecular. Aos 38 anos abandonou a carreira para ir viver nos Himalaias e tornar-se monge budista, mas o interesse pela ciência permaneceu.
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Desde 2000 que ele é membro do Mind and Life Institute, que promove o diálogo e a investigação entre cientistas e budistas, e participa em estudos sobre a consciência e o treino da mente com investigadores de vanguarda. Numa das mais recentes, os cientistas ligaram 256 sensores ao seu cérebro enquanto meditava e as imagens mostraram o mais alto nível de atividade alguma vez registado no córtex pré-frontal esquerdo, associado às emoções positivas. A escala variava entre +0.3 a -0.3 (beatífico) e os resultados de Matthieu Ricard situaram-se fora da escala por mais de -0.45. Foi a primeira vez no mundo que isto aconteceu.

É conhecido por ser o homem mais feliz do mundo. Porquê?images (14)
Receio que isso não seja culpa minha. Um jornalista lembrou-se de usar essa expressão, mas não corresponde à verdade. Surgiu no contexto das investigações científicas sobre os efeitos da meditação feitas pelo Instituto Mind and Life Institute,  nos EUA. Fui um dos participantes, mas houve outros e, de resto, os resultados são relevantes precisamente porque não se resumem a uma pessoa.

Em que consistiram essas experiências?
Basicamente no estudo do cérebro de monges experientes em meditação. Pegamos num conjunto de pessoas que nunca tinham meditado e ensinamos-lhes técnicas de meditação budista, que praticaram por um mês. Depois usamos eletroencefalogramas e ressonâncias magnéticas para comparar a atividade do cérebro dos monges e dos meditadores recentes durante a meditação. Nos recentes havia poucas diferenças, mas nos monges a meditação sobre a compaixão ativou de forma poderosa o lobo frontal esquerdo, que é a zona do cérebro associada às emoções positivas.
Quais são as implicações dessas experiências?
Mostram que é possível modificar padrões cerebrais – aquilo a que se chama neuroplasticidade – neste caso com o objetivo de sermos mais felizes. Já sabíamos que o treino modificava o cérebro em músicos ou nos taxistas londrinos obrigados a memorizar milhares de ruas. Agora sabemos que pode desenvolver zonas associadas à felicidade e ao bem-estar.
Podemos treinar a felicidade, é isso?
Sim. A felicidade é uma habilidade e pode ser cultivada. Eu não caí em nenhuma poção mágica quando era pequeno. O que conquistei foi graças a um caminho – o Budismo – que me permitiu aprender estas técnicas. Fui um adolescente perfeitamente normal, com todas as incertezas e angústias da idade. Não tive grandes dramas, mas estava confuso e, nesse sentido, não me considerava feliz. Na altura, a minha motivação era tornar-me um ser humano melhor.
Não encontrou respostas nas tradições ocidentais?
Não digo que não existam mas não as encontrei de forma satisfatória. Uma das razões foi porque as pessoas que via a ensinar não me transmitiam a coerência que vim  a encontrar no Oriente. Não é que fossem más pessoas, mas não eram especialmente boas, por isso tornar-me iguais a elas não fazia sentido. Quando conheci o Dalai lama foi diferente. Pensei ‘Como é que ele se tornou assim?’. Aquilo interessou-me, porque ele era um exemplo vivo de que os ensinamentos budistas funcionavam.
O que é que temos de aprender exatamente?
A felicidade é uma forma de ser. Se não somos particularmente felizes temos de aprender a cultivar essa forma de ser. Tudo começa por eliminar as toxinas mentais, como o ódio, a obsessão, o ciúme, a arrogância, o orgulho o desejo, enfim, tudo o que nos torna seres disfuncionais, e cultivar as qualidades positivas que integram a felicidade, como o altruísmo, o amor, a compaixão ou a criatividade. Isto faz-se trabalhando a mente. Aos poucos alguns desses venenos mais grosseiros começam a esbater-se e o resultado é uma espécie de liberdade grande ou felicidade.
“O mundo não é um catálogo de encomenda dos nossos desejos e nunca vai ser perfeito. Se vemos a vida dessa forma estamos em sarilhos”

Esses sentimentos não são o que nos torna humanos?
A questão não é negá-los. Quando falamos de emoções positivas ou negativas não é no sentido de virtudes ou defeitos, não há aqui julgamento moral. É no sentido de que cada uma destas qualidades contribui para um sentimento de florescimento e bem-estar. Uma emoção é má se nos provoca sofrimento.
Hoje em dia nunca sente emoções negativas?
Seria arrogante dizer isso, mas posso dizer que não sinto as mais negativas como ódio. Irritação sim. Mas sinto-as com muito menos intensidade e assim que surgem estou completamente consciente delas e possuo uma serie de métodos para lidar com isso. Não as nego. Por exemplo, quando vim para aqui atrasei-me devido ao trânsito e fiquei com receio de perder o comboio, o que iria deixar várias pessoas à minha espera…
O que podemos fazer em situações dessas?
Primeiro, perceber que a ansiedade é inútil. No meu caso, não me ia deixar menos atrasado. Depois, perceber que se deixar a ansiedade encher a minha mente vou ficar num estado miserável. Uma das principais qualidades da mente é a capacidade de permanecer consciente de si mesma. Isso permite-nos tomar consciência das nossas emoções. O que é isso de estar consciente da ansiedade? É algo diferente de estar ansioso, certo? Uma mente consciente da ansiedade já não é uma mente completamente ansiosa, está ansiosa e ao mesmo tempo consciente da ansiedade, logo, já não está completamente cheia de ansiedade, há uma parte dela livre disso. Se continuarmos a a tornar a mente mais consciente, a ansiedade vai perdendo força porque deixamos de alimentá-la. Não a bloqueámos, deixámos só que se desvanecesse. Quando ficamos familiarizados com este processo, as emoções continuam a aparecer mas com menos força e gradualmente levaremos cada vez menos tempo a dissolve-las.
Cultiva-se uma espécie de desapego em relação às emoções más?
Às más e às boas. Mas é preciso ter atenção: as pessoas confundem o desapego com a indiferença e acham que se trata de não ter sentimentos, não é isso. Suponha que tem uma experiência fantástica. Isso é ótimo, não há nada de errado com o prazer, mas se começamos a agarrar-nos a ele e a transformá-lo numa necessidade, converte-se num  tormento. O que acontece quando temos condições interiores para o bem-estar, é que ganhos e perdas, prazer e dor, sucessos e falhanços perdem relevância. Então, é fantástico se as coisas correm bem, mas não é um drama se correrem mal. O nosso controlo das circunstâncias exteriores é mínimo e no fim estamos sempre à mercê das nossas mentes.
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Vive num mosteiro no Nepal. Trabalhar das 9 às 5 num escritório é mais ou menos desafiante?
Claro que podem dizer que é mais fácil sendo monge, mas eu trabalho sete dias por semana no mosteiro. Gosto do que faço, não sei o que significa férias e ninguém me paga. Quando vou para a minha cela o meu trabalho é meditar, não é um emprego, mas é a minha ocupação.
Fez uma mudança  de vida radical…
Foi uma escolha. Antes de ser monge fazia investigação científica e gostava mas fui à Índia, senti-me melhor do que nunca e perguntei-me ‘Onde quero passar o resto da vida?’. Se estamos a fazer o que queremos está tudo bem. Hoje vivo numa cela de 2,5x por 2x9m, com uma vista fantástica sobre os Himalaias. Não tenho água quente, só uma malga e duas colheres, não sinto falta de nada. Consigo apreciar quando estou numa casa confortável, mas se não estiver também estou bem. Vivi 10 anos no Butão. O meu professor ensinava a rainha-mãe e um dia ela insistiu para ir no carro dela, um carro fantástico. Então lá ia eu de carro com a rainha-mae do Butão. No dia seguinte o meu professor mandou-me de volta ao mosteiro e tive de ir nas traseiras de um camião. Eram circunstâncias diferentes mas eu não sentia ‘Uau vou num Mercedes’ num dia para me sentir infeliz por ter de ir num camião no outro. Era divertido.
Há condicionamentos biológicos para a infelicidade?
Há predisposições que, numa pequena percentagem, podem ser genéticas, mas a epigenética ensina que os genes podem ser expressos ou não, ou seja, o facto de haver um master plan, o genoma, não significa que ele seja executado. É como ter um projeto de uma casa. Quando a construímos podemos fazer alterações. Também temos de contar com o ambiente: se crescemos sem amor, com abusos, é dramático porque somos logo forçados ao sofrimento. Mas ainda assim chega  um tempo em que podemos lidar com isso. Existe sempre um potencial para a mudança.
Nas pessoas habituadas a ser infelizes esse desafio é maior?
O essencial é perceber que  é sempre possível cultivar condições que nos ajudem a ser melhores. Quando estive a estudar na Universidade de Montreal havia um professor que costumava correr quando era novo. Começou a treinar novamente e o ano passado participou na maratona. A ciência demonstrou que a neuroplasticidade cerebral – a capacidade de mudar a estrutura do cérebro – é independente da idade. As pessoas mais velhas são perfeitamente capazes de mudar os seus cérebros com o treino. No Tibete há imensas histórias de pessoas que começaram a meditar aos 80 anos com ótimos resultados.
“A felicidade é uma forma de Ser que integra qualidades como o altruísmo e a criatividade. Podemos cultivá-las”
“A mente é a especialidade do budismo”, diz Ricard. “Não considero o budismo uma religião. Não perdemos tempo discutindo Deus. A questão é irrelevante. Buscamos saber como a mente funciona. Precisamos refinar a percepção de nossa realidade.” Aí é que entra o papel da meditação. Uma mente mais tranqüila responde melhor aos desafios da vida, enquanto as emoções descontroladas levam ao caminho oposto. O ódio, a inveja, a raiva ou a arrogância são sentimentos que minam a felicidade. Parece simples. Mas por que continuamos sofrendo? Como se estivéssemos enfeitiçados por uma obsessão, persistimos em focar nossa atenção no sofrimento. Isso só provoca o aumento da agonia. Quando um tema nos angustia, por que nossos pensamentos insistem em regressar à origem da dor? A resposta está em nossa própria mente: ela não tem o treinamento adequado. Os sábios budistas confirmam que não basta erradicar todo e qualquer tipo de sofrimento para encontrar a felicidade. “Além de deixar de lado as emoções negativas, também devemos desenvolver as positivas”, diz Ricard.
Porque resistimos à mudança?
É um grande mistério. Acho que temos um tipo de hesitação em olhar para dentro. Conheci gente nova que me disse ‘Não quero olhar para dentro, tenho medo do que vou encontrar’. É surpreendente. Não sei o que é que têm medo, mas contei isto ao Dalai Lama e ele disse ‘Há tantas coisas interessantes lá dentro. É melhor do que ir ao cinema!’. Há um fator determinante: a inspiração. Se temos uma razão para mudar é mais fácil. Pelo contrário, o maior perigo é desistir. Por um lado, as pessoas pensam sempre que podiam estar pior, por outro admitem que há coisas que gostavam de alterar mas acham que não é possível porque já são assim há muito tempo ou  é muito difícil. Por isso é que a primeira coisa a fazer é reconhecer o potencial de mudar. Porque a verdade é que qualquer treino tem sempre um efeito. Sempre. Há um bocadinho de inércia, esse é o principal obstáculo. Depois precisamos de algum interesse, e este só aparece se virmos um benefício. No meu caso, foi conhecer um professor especial, porque vi os resultados do treino à minha frente, não tive de acreditar porque alguém me disse.
Monk boys with umbrellas in Pagan, Myanmar

Como reverter o paradigma do ‘não sou capaz de mudar’?
Primeiro temos que refletir nos aspetos que nos mostram que é possível mudar. Dizemos que a raiva ou inveja são parte da natureza humana. Mas há muitas maneiras de ‘fazer parte’. Se algo faz parte da natureza intrínseca de outra coisa é impossível alterar isso. Mas se não fizer parte intrínseca posso fazer alterações. Por exemplo, em essência a água é H2O. Se lhe adicionar plantas fica medicinal, se juntar cianeto torna-se mortal, mas continua a ser H2O, o que lhe acrescentei não faz parte da sua essência e posso removê-lo. Há algo parecido na mente. As emoções negativas são como o cianeto e as positivas como as plantas medicinais, mas existe uma qualidade da mente independente disso que se chama Consciência Essencial ou Luz Clara da Mente. Esta qualidade essencial é o que nos permite ter consciência das nossas emoções.
Temos de encher a mente de ‘emoções medicinais’?
Sim. Por exemplo, se a raiva é o meu principal problema, qual é o oposto da raiva? Benevolência. Se eu cultivar a benevolência, enchendo a minha mente com este sentimento, talvez ele se torne mais forte e neutralize a raiva, porque os dois são mutuamente incompatíveis.
Não é possível ter emoções ambivalentes?
Não, o que chamamos emoções ambivalentes são de facto emoções contraditórias, mas não ocorrem ao mesmo tempo embora a oscilação possa ser muito  rápida. Sempre que sentimos, nem que seja por um segundo, amor e simpatia, não podemos querer fazer mal. O que há a fazer, é aumentar o tempo em que nos concentramos nas emoções positivas e isso é uma questão de treino.
A meditação tem efeitos sobre o sofrimento físico?
Há um filósofo suíço chamado Alexandre Jollien que fala disso. É uma pessoa fantástica, fabuloso filósofo, mas incapacitado fisicamente. Hoje é  um orador inspirador mas conta que todos os dias nos transportes alguém o ridiculariza. Não é fácil, ele odeia o seu corpo de certa maneira, apesar de ter ganho paz acerca disso. Nos problemas mentais pode ser mais difícil, mas a depressão é um campo onde a meditação pode ser muito poderosa. Há muitos estudos sobre isso. Obviamente é difícil começar a meditar quando se está no pico de uma depressão porque não se tem vontade, mas nas pessoas que já tiveram pelo menos dois episódios e estão realmente fartas daquilo os programas de meditação baseada na atenção plena reduziram em 40% o risco de recaída.
Se deixamos de meditar os efeitos  perduram?
Perduram porque mudaram a nossa maneira de Ser. É como andar de bicicleta. Sempre que dominamos uma nova capacidade ela fica adquirida, ainda que o treino melhore o desempenho. Para aprender a andar de bicicleta tivemos de alterar circuitos neuronais, o mesmo acontece quando meditamos. No fundo, meditar é aprender uma forma diferente de experienciar o mundo. Quando estou a trabalhar não estou a meditar, mas em quase todos os momentos uso capacidades que adquiri na meditação e assim continuo a reforçá-las. Fazendo isso a vida torna-se parte da meditação.
Muitos começam a meditar e desistem. A felicidade dá trabalho?
Sim, mas é um esforço gratificante. A meditação inicialmente pode não ser divertida. Há uma expressão de tibetana que diz “No início nada vem, no meio nada fica, no fim nada vai embora”, ou seja, no início não vemos os benefícios, é quando podemos desistir; no meio vemos alguns, mas depois deixamos de ver outra vez; no fim atingimos o objetivo e nunca mais o perdemos. O tempo destas fases varia de pessoas para pessoa, mas só o facto de começar a meditar já é raro nos dias que correm.
A felicidade faz parte da natureza humana ou foi uma conquista evolutiva?
Pessoas infelizes têm menos iniciativa e até menos interesse em reproduzir-se pelo que em termos evolutivos ser infeliz não é uma vantagem para a espécie. É um facto que em termos gerais, as pessoas dizem que, apesar de tudo, estão mais satisfeitas do que não satisfeitas com a sua vida. Não estamos sempre deprimidos porque isso não seria bom para a espécie. É o que dizem os evolucionistas.
Essa satisfação mediana não é o conceito de felicidade budista…
O meu conceito de felicidade não se limita a uma satisfação mediana nem se confunde com o conceito de prazer. O prazer depende das circunstâncias, pode contribuir para a felicidade ou ir contra ela. Adoro música clássica, mas ouvir 48 horas de chopin non stop é um pesadelo. Também podemos sentir prazer a torturar pessoas. A felicidade é quase o oposto. É algo que está ali, independentemente do sofrimento ou dos prazeres passageiros. Quanto mais nos confrontamos com os altos e baixos da vida, mais a reforçamos porque ficamos menos vulneráveis às circunstâncias exteriores.
Podemos ser felizes sabendo que outros sofrem?
A tristeza é incompatível com o prazer mas não com a felicidade. Podemos estar tristes sabendo que há pessoas a morrer à fome mas não temos de estar desesperados e podemos ficar determinados a ajudar. Neste sentido a determinação em fazer algo para acabar com o sofrimento faz parte da minha felicidade.
E é possível ser feliz quando somos vítimas de violência?
Para a felicidade é muito pior fazer mal aos outros do que nos fazerem mal a nós. Não quer dizer que temos de ser passivos se nos agredirem, mas se não pudermos evitar só temos de lidar com isso. No fundo, felicidade é usar todas as circunstâncias de forma construtiva.
Então ser infeliz é uma escolha?
É uma escolha a longo prazo, não  agora. Se algo mau acontece e não estamos treinados para lidar com isso, não temos escolha senão ficar angustiados. Podemos, a longo prazo, aprender a lidar com isso. Não temos que nos sentir cupados. A escolha que temos é começar um processo de mudança.
Vivemos em sociedades que nos fazem infelizes?
Há um estudo de Michael T. Kasser que mediu os níveis de consumismo de centenas de pessoas por 20 anos e concluiu que quanto mais alto menos felizes somos. Não se trata de um julgamento moral mas de uma constatação. A mentalidade consumista leva à procura dos prazeres imediatos, o que não traz felicidade. Atualmente os miúdos de dois anos já são inundados de anúncios. Isto é eticamente errado e um começo tortuoso para a felicidade.
Uma cultura de meditação pode criar gerações mais felizes?
Pessoas com mentes treinadas poderão fazer nascer crianças mais propensas a serem felizes. A cultura e a educação têm uma influência determinante na forma como o cérebro se começa a moldar.
Um budista tem mais probabilidade de ser feliz do que um cristão ou ateu?
Se aplicarmos os valores do amor e da compaixão chegamos ao mesmo sítio. São Francisco de Assis encarna todos os princípios budistas. O Dalai Lama disse uma vez que no budismo não achamos que exista um criador mas quem acredita tem de amar os outros, que são também produtos de Deus. Quando foi a Montserrat, na Catalunha, ver um eremita numa gruta, perguntou-lhe ‘Sobre o que tem estado a meditar na sua vida toda?’. Ele respondeu ‘No Amor’. E emanava tanto amor que o Dalai Lama ficou realmente inspirado. No fundo não há assim tanta diferença.

“Podemos ter um acesso de amor e outro, imediatamente depois, de ódio. Mas não podemos sentir ódio e amor ao mesmo tempo por uma mesma pessoa ou objeto”, afirma o monge. “Devemos habituar nossa mente a substituir emoções negativas por positivas. Quanto mais cultivarmos o amor e a bondade, menos espaço teremos para a raiva e o ódio em nossa paisagem mental. É importante saber quais são os antídotos que correspondem a cada uma de suas emoções negativas.”
Há quem diga que a felicidade é uma sucessão de pequenos prazeres. Mas Ricard ressalta que “o prazer é uma experiência fugaz – depende de circunstâncias exteriores, de um momento ou lugar específico. Quase sempre está ligado a uma ação”. Ele lembra que algumas pessoas sentem prazer até em se vingar e em torturar os outros. “A felicidade autêntica não está ligada a uma atividade. É um estado de ser, um profundo equilíbrio emocional.” Ricard argumenta que não existe razão para não buscarmos sensações agradáveis, sejam elas relacionadas com a natureza, com a arte ou ao lado de pessoas queridas. “Os prazeres tornam-se obstáculos somente quando perturbam o equilíbrio da mente e nos levam à obsessão por gratificações. O prazer não é inimigo da felicidade. Se é vivido num estado de paz interior e liberdade, o prazer adorna a felicidade, sem obscurecê-la”, afirma.

A PALESTRA

Dentre várias palestras, que você pode ver clicando aqui, em nosso canal de vídeos, destacamos a palestra abaixo, curta que resume muito bem o que Mattheiu passa em seu livro ”Felicidade – A pratica do Bem Estar”:
Confira também, Matthieu falando sobre meditação:

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O LIVRO

Em ””Felicidade – A pratica do Bem Estar” Matthieu conta um pouco de sua história, confira:
Pela manhã, quando me sento na relva em frente ao meu local de retiro, descortinam-se à minha frente centenas de quilômetros de picos elevados do Himalaia, brilhando ao sol nascente. A serenidade do cenário combina de maneira natural e perfeita com a paz interior. De fato, um longo caminho foi percorrido desde o Instituto Pasteur, onde, há trinta e cinco anos, fiz pesquisas sobre a divisão celular, mapeando genes dos cromossomos da bactéria Escherichia coli.
Isso pode parecer uma mudança bem radical. Teria eu anunciado ao mundo ocidental? A renúncia, pelo menos se considerarmos como os budistas usam esse termo, é um conceito muito mal interpretado. Não se trata de abrir mão daquilo que é bom e belo. Como isso seria tolo! Trata-se de desembaraçar-se daquilo que é insatisfatório e mover-se com determinação em direção ao que mais importa. Isso é uma questão de liberdade e significado: libertar-se da confusão mental e das aflições autocentradas e encontrar o propósito das experiências por meio do insight e da bondade amorosa.
Aos vinte anos eu tinha uma boa idéia do que não queria: uma vida sem sentido. Mas era incapaz de imaginar o que eu queria. A minha adolescência fora tudo, menos tediosa. Lembro-me da excitação que senti aos dezesseis anos, quando tive a oportunidade de almoçar com Igor Stravinsky na companhia de um amigo jornalista. Bebi com avidez todas as suas palavras. Autografou-me um cópia da partitura de Agon, que naquele momento era uma obra pouco conhecida, mas de que eu gostava especialmente. Ele escreveu estas palavras: “Para Matthieu, Agon, da qual eu próprio gosto muito.”
Não faltavam encontros fascinantes no circulo intelectual em que meus pais viviam. Minha mãe, Yahne Le Toumelin, uma pintora bem conhecida, cheia de vida e calor humano que também se tornou uma monja budista, era amiga dos grandes expoentes do surrealismo e da arte contemporânea: André Breton, Leonora Carrington, Maurice Béjart – para quem pintou grandes cenários teatrais. Meu pai, que sob o pseudônimo Jean-François Revel tornou-se um dos pilares da vida intelectual francesa, teve jantares, inesquecíveis com os grandes pensadores e as mentes criativas da época: Luis Buñuel; o filósofo Emmanuel Cioran; Mário Soares, que liberou Portugal do jugo do fascismo; Henri Cartier-Bresson, considerado um dos maiores fotógrafos do século; e muitos outros.
Em 1970 meu pai escreveu Nem Marx nem Jesus, expressando sua rejeição ao totalitarismo muito similar da política e da religião. O livro ficou na lista de best-sellers americanos por um ano.
Fui contratado pelo Instituto Pasteur, em 1967, como jovem pesquisador, para trabalhar no laboratório de genética celular de François Jacob, que fora agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina. Lá, trabalhei com alguns dos grandes da biologia molecular, inclusive Jacques Monod e André Lwoff, que almoçavam juntos todos os dias na mesa comunitária, num canto da biblioteca, acompanhados de cientistas de toas as partes do mundo. François Jacob tinha apenas dois alunos de doutorado. Ele confidenciou a um amigo mútuo que havia me aceitado não só por causa do meu trabalho universitário, mas também por ter ouvido falar que eu tinha planos de construir um cravo – um sonho que nunca levei em frente, mas que, pelo visto, rendeu-me um lugar no laboratório muito concorrido.
Eu também gostava muito de astronomia, de esquiar, de velejar e de ornitologia. Aos vinte anos publiquei um livro sobre animais migratórios.1 Aprendi fotografia com um amigo, que era fotógrafo naturalista profissional, e passei muitos fins de semana espreitando mergulhões e gansos selvagens nos brejos de Sologne e nas praias do Atlântico.
Visitei as encostas dos Alpes da minha região natal durante vários invernos e passei muitos verões na praia, com amigos do meu tio, o navegador Jacques-Yves Le Toumelin, que, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, empreendeu uma das viagens à vela ao redor do globo, navegado sozinho em seu veleiro de trinta pés. Ele me apresentou a muitas pessoas incomuns – aventureiros, exploradores, místicos, astrólogos e metafísicos. Um dia fomos visitar o estúdio de um de seus amigos em Paris e encontramos o seguinte bilhete na porta: “Desculpe-me por não estar aqui para recebe-lo. Fui para Timbuktu a pé”.
A vida esta longe de ser monótona, mas faltava algo essencial. Em 1972, quando tinha vinte e seis anos e estava farto da vida em Paris, decidi mudar para Darjiling, na Índia, nos contrafortes do Himalaia, para estudar com um grande professor tibetano.
Como cheguei a essa encruzilhada? Cada um dos surpreendentes indivíduos cujo caminho eu cruzara tinha seu gênio especial. Gostaria de ter tocado piano com Glenn Gould, ter jogado xadrez como Bobby Fisher ou ter tido o dom poético de Baudelaire, mas não me senti inspirado a tornar-me o que eles eram como seres humanos. Apesar de suas qualidades artísticas, científicas e intelectuais, quando o assunto era o altruísmo, a abertura para o mundo, a determinação e a alegria de viver, as habilidades desses homens não eram nem melhores nem piores do que as de todos nós.
Tudo mudou quando encontrei poucos mas notáveis seres humanos que me mostraram o que pode ser uma vida humana realizada. Antes desses encontros, eu já me inspirava na leitura de grandes personagens como Martin Luther King Jr. e Mohandas Gandhi, que, pelo força pura de suas qualidades humanas, foram capazes de inspirar outros a mudar o seu modo de ser. Quando fiz vinte anos, assisti a uma série de documentários feitas por um amigo, Arnaud Desjardins, sobre os grandes mestres espirituais que tinham deixado o Tibete após cruel invasão da China comunista e que viviam como refugiados na Índia e no Butão. Fiquei perplexo. Eram todos diferentes mas, de modo notável, tinham em comum o fato de emanarem beleza interior, força compassiva e muita sabedoria. Encontrar Sócrates, ouvir os diálogos de Platão ou sentar-se aos pés de são Francisco era impossível, mas, de repente, aqui estavam duas dúzias de seres especiais, bem diante dos meus olhos. Não demorei muito para me decidir a viajar até a Índia e encontrá-los.
Como descrever meu primeiro encontro com Kangyur Rimpoche, em junho de 1967, numa casinha de madeira distante alguns quilômetros de Darjuling? Ele irradiava bondade interior, sentado de costas para uma janela que dava para um mar de nuvens, trespassadas pela majestosa cadeia de montanhas do Himalaia, com picos de mais de oito mil metros de altitude. As palavras não são suficientes para expressar a profundidade, a serenidade e a compaixão que emanavam dele. Por três semanas, sentei-me diante dele o dia inteiro e tive a impressão de que fazia aquilo que as pessoas chamam de meditação. Em outras palavras, acalmava-me na presença dele, tentando ver o que estava por trás da tela dos meus pensamentos.
Mas foi só depois de voltar da Índia, durante o meu primeiro ano no Instituto Pasteur, que percebi a importância do encontro que tivera com Kangyur Rimpoche. Percebi que havia descoberto uma realidade que podia inspirar o resto da minha vida e dar-lhe direção e sentido. Foi no decorrer das viagens seguintes, realizadas em todos os verões de 1967 a 1972, que fui notando que, a cada estada em Darjiling, esquecia tudo o que se referia à minha vida na Europa> mas durante o restante do ano, quando estava no Instituto Pasteur, meus pensamentos ficavam voltando para o Himalaia. Meu professor, Kangyur Rimpoche, me aconselhou a terminar o doutorado, pois assim eu não apressaria as coisas. Apesar de ter esperado vários anos, não foi difícil para mim tomar a decisão da qual jamais me arrependi: viver onde eu queria estar.
Meu pai ficou bastante desapontado quando me viu interromper uma carreira cujo começo considerava muito promissor. Mais ainda, como agnóstico convicto, ele não levava o budismo muito a sério ainda que como escreveu certa vez, “não tinha anda contra, pois a abordagem direta e livre de influências estranhas conferia ao budismo uma posição distinta entre as doutrinas religiosas e havia granjeado o respeito de alguns dos mais rigorosos filósofos ocidentais” 2 Apesar de não termos visto com frequência por muitos anos – ele veio visitar-me em Darjiling e mais tarde no Butão – , permanecemos próximos. Quando indagado por jornalistas, meu pai respondeu: “As únicas nuvens que existiram em nosso relacionamento foram as das monções da Ásia”.
O que descobri jamais me exigiu um fé cega. Era uma ciência da mente rica e pragmática, uma maneira altruísta de viver, uma filosofia cheia de significado e uma prática espiritual que levava a uma genuína transformação interior.
Ao longo dos últimos trinta e cinco anos eu nunca me vi em contradição como o espírito científico da maneira como o compreendo, ou seja, como a busca empírica da verdade. Nesse percurso, encontrei seres humanos que eram permanentemente felizes. Mas, de modo diferente daquilo que nós costumamos chamar de felicidade: eram imbuídos de uma profunda visão da realidade e da natureza da mente, e cheios de benevolência para com os outros. Vim a entender também que, apesar de algumas pessoas terem uma inclinação natural para serem mais felizes do que as outras, essa felicidade ainda é vulnerável e incompleta, e que alcançar a felicidade duradoura como modo de ser é uma habilidade que se adquire. Isso requer esforço constante no treino da mente e no desenvolvimento de qualidades como paz interior, atenção plena e amor altruísta.
Todos os ingredientes para que eu descobrisse o caminho para uma vida realizada chegaram juntos: um modo de pensar profundo e saudável e o exemplo vivo daqueles que corporificaram a sabedoria em suas palavras e ações. Não havia nada do tipo “faça o que eu digo, mas não o que eu faço” que desanima tantos buscadores em todas as partes do mundo.
Permaneci em Darjiling pelos sete anos seguintes. Vivi perto de Kangyur Rimpoche até a sua morte, em 1975. Depois, continuei a estudar e a meditar em um pequeno local de retiro, que ficava um pouco acima do monastério. Apresni tibetano, que atualmente é a língua que mais uso na minha vida diária no Oriente. Foi então que encontrei aquele que viria a ser o meu segundo principal mestre, Dilgo Khyentse Rimpoche, com quem passei, no Butão e na Índia, treze anos inesquecíveis. Ele foi um dos grandes luminares do seu tempo, reverenciado por todos, do rei do Butão ao mais humilde fazendeiro e tornou-se um mestre bem próximo do Dalai Lama. Sua jornada interior levou-o a uma profundidade de conhecimento extraordinária, tornando-o, para todos os que o conheceram, uma fonte de bondade amorosa, sabedoria e compaixão.
Havia um fluxo constante de mestres e discípulos que vinham visitá-lo e estudar com ele, e assim tive a oportunidade, quando eu comecei a traduzir as escrituras tibetanas para idiomas ocidentais, de pedir esclarecimentos sobre os textos para pessoas que eram verdadeiros tesouros vivos de conhecimento. Servi também de intérprete para Khyentse Rimpoche, e viajei com ele para a Europa e para o Tibete, quando, após trinta anos no exílio, ele voltou pela primeira vez à Terra das Neves. No Tibete, só restavam ruínas. Seis mil monastérios tinham sido destruídos, mais de um milhão de tibetanos haviam morrido de fome e nas perseguições, e muitos dos que sobreviveram tinham passado quinze ou vinte anos em campos de trabalho forçado. O retorno de Khyentse Rimpoche foi como o sol surgindo repentinamente após uma noite longa e escura.
Na Índia , e depois no Butão, vivi uma vida simples. Recebia uma carta a cada alguns meses, não tinha rádio e sabia pouco do que acontecia  no mundo. Em 1979, Khyentse Rimpoche começou a construir um monastério no Nepal para preservar a herança tibetana. Artistas, eruditos, meditadores, filantropos e muitos outros foram em grandes grupos reunir-se no monastério de Shechen. Passei  a viver lá e, depois da morte de Khyentse Rimpoche em 1991, ajudo seu neto Rabjam Rimpoche, o abade de Shechen, a realizar o sonho do nosso mestre.
Um dia alguém me ligou da França para saber se eu gostaria de publicar um livro em que dialogaria com meu pai. Eu não levei a proposta muito a sério, mas respondi: “Por mim tudo bem. Mas pergunte a meu pai.” Pensei que não ouviria mais falar sobre o assunto. Não podia imaginar que meu oai, um agnóstico, concordasse em escrever um livro no qual dialogasse com um monge budista, mesmo sendo seu filho. Eu estava errado. Em um almoço, o editor propôs-lhe várias ideias de livros, que ele prontamente rejeitou, mantendo-se concentrado na arte gastronômica. Mas quando, durante a sobremesa, esse editor propôs nosso diálogo, meu pai ficou paralisado e, após alguns segundos de silêncio, respondeu: “Não posso negar-me isso”. Esse foi o fim da minha vida calma e anônima.
Quando eu soube da sua resposta afirmativa, fiquei um pouco preocupado pensando que o meu pai, famoso por seus destruidores ataques a visões que considerava errôneas, talvez acabasse comigo. Felizmente o encontro aconteceu no meu território. Ele vaio ao Nepal e passamos dez dias numa pequena hospedaria na floresta sobre o vale de Katmandu, gravando nossas conversas, que aconteciam durante uma hora e meia pela manhã e uma hora à tarde. O resto do dia perambulávamos juntos pelos campos e pelas matas. Talvez ele também tivesse ficado preocupado, temendo que o debate não fosse estar à altura de seus padrões intelectuais, mas ao final do primeiro dia enviou  um fax ao nosso editor, Nicole Lattès, dizendo: “Tudo está indo bem”. De minha parte, eu tinha rascunhado uma lista exaustiva de tópicos. Ao vê-la pela primeira vez, meu pai exclamou: “Mas isso é tudo que os filósofos vêm discutindo nos últimos duzentos anos!” Dessa forma, seguimos. Os dias passaram, e na última sessão ele trouxe a lista novamente, mostrou-me alguns tópicos que tinham restando, dizendo: “Ainda não discutimos estes aqui”
Nosso livro, O monge e o filósofo, foi um sucesso imediato. Mais de 350 mil cópias foram impressas na França, e ele foi traduzido para vinte e um idiomas. Fui convidado para inúmeros programas na TV e arrastado para um redemoinho de atividades na mídia. Apesar de contente por poder compartilhar algumas ideias preciosas para mim e que tinham contribuído tanto para a minha vida, esse episódio me fez perceber como é artificial a construção de uma celebridade. Eu era a mesma pessoa de sempre, mas de repente tinha me tornado uma figura pública.
Também desabou sobre mim a compreensão de que começava a vir para o meu caminho muito mais dinheiro do que eu jamais imaginava chegar a ter  – uma mudança e tanto, considerando os vários anos em que vivi na Índia com apenas cinquenta dólares por mês. Como não conseguia me ver comprando uma enorme casa com piscina, decidi doar todos os lucros e direitos desse livro, bem como dos seguintes, para uma fundação que realiza projetos humanitários e educativos na Ásia. Essa decisão me deixou mais tranquilo. Os projetos humanitários, desde então, foram o foco central da minha vida. Com os poucos e dedicados amigos voluntários, a ajuda de generosos benfeitores e sob a inspiração do eu abade, Rabjam Rimpoche, conseguimos construir e manter mais de trinta clínicas e escolas no Tibete, Nepal e Índia.
Veio então o retorno à ciência. Ele aconteceu em dois momentos: primeiro a física e a natureza da realidade exterior, depois as ciências cognitivas e a natureza da mente.
Quando Trinh Xuan, um renomado astrofísico da Universidade da Virgínia, sugeriu que realizássemos um diálogo entre o budismo e a ciência, não pude resistir, pois eu já havia elaborado muitas perguntas para fazer a um físico sobre a natureza do mundo dos fenômenos. Thuan e eu nos encontramos na Summer University, em Andorra, em 1997. Em nosso longos passeios pelo majestoso cenário dos Pirineus, tivemos uma série de conversas fascinantes. Os átomos são “coisas” ou meros “fenômenos observáveis”? A noção de uma “causa primeira” do universo sobrevive à análise? Há uma realidade sólida por trás do véu das aparências? O universo é feito de “eventos interdependentes” ou de “entidades autônomas”? Descobrimos similaridades filosóficas surpreendentes entre a interpretação da Escola de Física Quântica de Copenhague e a análise budista da realidade. Seguiram-se mais encontros e nasceu o livro The quantum and the lotus.
Esse diálogo tratava principalmente dos aspectos filosóficos, éticos e humanos da ciência. O passo seguinte, no qual ainda hoje estou completamente envolvido, foi colaborar nos estudos científicos sobre o ponto principal da prática budista: transformar a mente.
Meu falecido amigo espiritual, Francisco Varela, um dos pioneiros no estudo da neurociência, sempre dizia que um importante caminho a percorrer era a colaboração entre as ciências cognitivas e os contemplativos budistas, devido ao grande potencial do budismo não apenas de contribuir para a compreensão da mente humana, como também para conduzir experimentos científicos propriamente ditos. Francisco, juntamente com o empresário americano Adam Engle, foi fundador do Mind and Life Institute, surgiu para facilitar e organizar encontros entre cientistas importantes e o Dalai Lama, que estava extremamente interessado na ciência.
Estive pela primeira vez em um encontro do Mind and Life em 2000, em Dharamsala, que é o domicílio do Dalai Lama na Índia. O tema era “Emoções destrutivas”. Foi um encontro interessantíssimo, com alguns dos melhores cientistas da área, inclusive Francisco Varela, Richard Davidson, Paul Ekman e outros, sob a coordenação de Daniel Goleman. Os cinco dias de diálogo foram permeados de um brilho e uma abertura únicos, além de um profundo desejo de contribuir com algo original e benéfico para a humanidade. Solicitaram-me que apresentasse a perspectiva budista sobre os vários modos de lidar com as emoções. Como um garotinho passando por um exame, senti-me estranho ao falar na presença do Dalai Lama, que conhecia o assunto cem vezes melhor do que eu. Eu trabalhava mais de uma década como seu intérprete para o francês e resolvi assumir, em minha mente, meu papel habitual, concentrando-me nos cientistas e nos mais de cinquenta observadores que me ouviam para comunicar a essência do que tinha aprendido com  os meus mestres.
No transcorrer do encontro ficou claro que seria possível organizar um programa de pesquisas. Poderíamos convidar os especialistas em meditação para visitar os laboratórios e estudar os efeitos de anos de treinamento da mente. Como as habilidades desenvolvidas por ele mudariam a forma de lidarem com as emoções – e mesmo o próprio cérebro? Esse tipo de estudo sempre foi o sonho de Francisco. Combinou-se uma agenda com Richard Davidson e Paul Ekman. A história dessa contínua colaboração, de que participei, é relatada no capítulo 16 do livro de Daniel Goleman intitulado Como lidar com emoções destrutivas.
Foi muito estimulante voltar ao campo científico de trinta anos de ausência e, sobretudo, fazê-lo na companhia de cientistas tão bons. Eu estava intrigado e queria ver o que os mais recentes métodos de investigação científica revelariam sobre os diferentes estados meditativos. Será que a atenção focada seria captada como algo diferente da compaixão por um escâner da atividade cerebral? Também queria muito saber se meditadores experientes apresentariam resultados de testes similares entre si e como se diferenciariam de pessoas normais, não-treinadas. Desde então, tenho me encantado com o ambiente entusiasmado e caloroso no qual nossa colaboração está se desenvolvendo. Com a publicação dos primeiros artigos científicos, creio que estamos no limiar de uma pesquisa inovadora, que abre um campo completamente novo de conhecimento.
Também me envolvi cada vez mais com a fotografia e, ao longo dos últimos anos, publiquei cinco livros com os meus trabalhos como fotógrafo. Sinto-me feliz em poder partilhar, por meio de imagens, a beleza interior daqueles com quem vivo, bem como a beleza interior do mundo deles, oferecendo assim um pouco de esperança para a natureza humana.
E, então, por que publicar agora um livro sobre a felicidade? Ele começou com um típico exemplo da “exceção francesa”. Alguns intelectuais franceses desprezam a felicidade, apresar de discutirem muito sobre ela. Participei de um debate com um deles para um artigo a ser publicado numa revista francesa. Depois dessa experiência, pensei que se eu escrevesse um novo livro incluiria um capítulo a respeito.
Nesse meio-tempo, Paul Ekman, Richard Davidson, Alan Wallace e eu passamos dois dias em um local bem próximo à natureza, na costa norte da Califórnia, escrevendo um artigo intitulado “Perspectivas do budismo e da psicologia sobre as emoções e o bem-estar”. Percebi que o tema era tão central para a vida humana que merecia uma investigação mais profunda.
Ao longo de um ano, li tudo o que caiu em minhas mãos sobre a felicidade e o bem-estar, presente nas obras dos filósofos do Ocidente, dos psicólogos sociais, dos cientistas cognitivos e até na imprensa, que sempre traz a visão das pessoas sobre a felicidade, como a daquela atriz francesa que disse: “Para mi, felicidade é comer um saboroso prato de espaguete”, ou “andar na neve sob as estrelas”, e assim por diante.
As muitas definições de felicidade que encontrei são contraditórias entre si e às vezes parecem vagas ou superficiais. Assim, à luz da analítica e contemplativa ciência da mente que encontrei graças à bondade de meus mestres, embarquei na tentativa de compreender o sentido e o mecanismo da felicidade genuína e, é claro, do sofrimento.
Quando este livro foi publicado na França provocou um debate que envolveu toda a nação. Os intelectuais confirmaram que não estavam interessados na felicidade e descartaram a ideia de que ela pudesse ser cultivada como uma habilidade. Um autor escreveu um artigo em que me pedia para parar de perturbar as pessoas com o “trabalho sujo da felicidade”. Outra revista publicou, em destaque, uma reportagem sobre os “bruxos da felicidade”. Depois de viver um mês cruel em Paris, envolvido nesses debates e recebendo a atenção da mídia, eu me senti como um monte de pelas desencontradas de um quebra-cabeças. Fiquei feliz ao voltar para as montanhas do Nepal e juntá-las novamente.
Apesar de minha vida ter se tornado mais agitada, ainda vivo no monastério de Shechen, no Nepal, e passo dois meses por ano no meu eremitério voltado para as montanhas do Himalaia.
Sem dúvida tenho muitos exercícios pela frente antes de atingir a genuína liberdade interior, mas estou deleitando com a jornada. Simplificar a vida para chegar à sua quintessência é a busca mais recompensadora que já empreendi. Isso não significa abrir mão daquilo que é benéfico, mas descobrir o que realmente importa e o que traz realização duradoura, alegria, serenidade e, acima de tudo, descobrir a dádiva insubstituível do amor altruísta. O que significa transformar a si para melhor transformar o mundo.
Quando eu tinha vinte anos, como escrevi na conclusão deste livro, palavras como felicidade e benevolência não significavam muito para mim. Eu era um típico jovem estudante parisiense, que assistia aos filmes de Eisenstein e dos irmãos Marx, estudava música, esteve nas barricadas de maio de 68 perto da Sorbonne, amava esportes e a natureza. Mas eu não sabia muito como viver a minha vida, exceto como um improviso total, dia após dia. De algum modo, senti que havia em mim e nos outros um potencial a desabrochar, mas não tinha ideia de como realizar isso. Trinta e cinco anos mais tarde, certamente ainda tenho muito a percorrer, mas pelo menos a direção está clara para mim, e amo e aproveito cada passo dessa jornada.
Eis por que este livro, apesar de budista em espírito, não é um “livro budista” contrário a um livro “cristão” ou “agnóstico”. Ele foi escrito na perspectiva da “espiritualidade secular”, um tema de que o Dalai Lama gosta muito. Como tal, não se destina às estantes de livros budistas, mas ao coração e à mente daqueles que aspiram a ter um pouco mais de joie de vivre e a deixar a sabedoria e a compaixão reinarem na sua vida.

Fonte:http://www.budavirtual.com.br/conheca-matthieu-ricard-para-alguns-o-mais-feliz-mundo-para-nos-inspiracao-deste-site/

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